Na celebração dos 204 anos da Independência do Brasil, os dois países reafirmaram uma relação construída sobre história, língua e cultura, mas também sobre interesses comuns no Atlântico Sul e numa ordem internacional em transformação.

A relação entre São Tomé e Príncipe e o Brasil já não se resume aos laços históricos, à língua portuguesa ou às referências culturais partilhadas.

A mensagem deixada durante a celebração dos 204 anos da Independência do Brasil, na residência do diplomata brasileiro, Vilmar Coutinho Júnior, aponta para uma parceria que procura afirmar-se também no plano diplomático, estratégico e multilateral. “Os povos do Brasil e de África sabem que, por meio do diálogo e da negociação, podemos vencer os desafios que se apresentam”, admitiu.

O Embaixador Vilmar Coutinho Junior apresentou os dois países como um exemplo do que pode ser construído através do diálogo e da negociação, num contexto internacional marcado por conflitos, alterações climáticas e fortes disputas sobre o futuro da ordem multilateral.

“Apesar disso, o ano de 2026 tem sido também um período em que o multilateralismo vem demonstrando a sua importância no estabelecimento de parâmetros de convivência internacional”, disse.

Vilmar Coutinho Júnior destacou a convergência entre São Tomé e Príncipe e o Brasil em importantes dossiers internacionais, colocando a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) entre os exemplos dessa aproximação.

Em abril, o Rio de Janeiro acolheu a 9.ª Reunião Ministerial da ZOPACAS, realizada neste ano 2026, em que o mecanismo completou quatro décadas. O encontro colocou entre as prioridades a cooperação em matéria de defesa e governança dos oceanos, áreas particularmente relevantes para São Tomé e Príncipe enquanto Estado insular do Atlântico Sul.

A aproximação entre os dois países também se projectou recentemente no debate multilateral sobre memória histórica.

Em 25 de março, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 80/250, que reconhece o tráfico de africanos escravizados e o sistema de escravização racializada como “o mais grave crime contra a humanidade”. A resolução foi aprovada por 123 votos favoráveis, três contra e 52 abstenções. São Tomé e Príncipe esteve entre os países que apoiaram a iniciativa.

Já em 4 de setembro, a Assembleia Geral aprovou uma resolução sobre a necessidade de promover representações cartográficas que reflictam de forma mais adequada o tamanho relativo dos continentes, iniciativa liderada pelo Togo e pela União Africana. A proposta foi aprovada por 164 votos contra um.

Para o embaixador brasileiro, estes episódios demonstram a capacidade do multilateralismo de estabelecer novos parâmetros de convivência internacional e mostram também momentos de convergência entre os dois países.

A dimensão política da relação ganhou ainda outro elemento com a referência do diplomata ao facto de Brasil e São Tomé e Príncipe serem democracias que realizam eleições em 2026, sublinhando que, apesar das diferenças de escala, ambos partilham o princípio de que a vontade popular deve determinar os rumos dos respectivos países.

“Os nossos países são duas democracias pujantes e, em 2026, realizam eleições em que as suas respectivas sociedades escolhem os seus futuros dirigentes”, demonstrou.

Durante a cerimónia, Vilmar Coutinho Junior evocou a jornalista, poetisa e escritora são-tomense Conceição Lima, falecida este ano, lembrando o reconhecimento da sua obra no Brasil. “Lembro-me de que a última conversa que tive com ela foi exactamente sobre isso”, desvendou.

A homenagem tornou visível uma das dimensões mais profundas da ligação entre os dois países, a circulação de ideias, literatura, conhecimento e cultura entre as duas margens do Atlântico.

A ministra da Justiça, Assuntos Parlamentares e Direitos da Mulher, Vera Cravid, que representou o Governo são-tomense na cerimónia, colocou precisamente esses elementos no centro da relação bilateral.

Para a Vera Cravid, São Tomé e Príncipe e Brasil partilham uma história, uma língua e referências culturais comuns, mas, sobretudo, uma relação de amizade e cooperação construída ao longo de décadas. “Estas experiências demonstram como a cooperação pode produzir resultados concretos quando assenta na partilha de conhecimentos, na confiança e na compreensão das realidades de cada país”, mencionou.

O desafio colocado pelos dois representantes é, portanto, maior do que preservar uma memória comum. É transformar essa proximidade histórica numa relação capaz de produzir influência, cooperação e resultados no presente, e projectá-la para as novas gerações.

Num Atlântico Sul onde a segurança marítima, a protecção dos oceanos, a economia azul e as disputas sobre a ordem internacional ganham cada vez maior importância, a relação entre São Tomé e Príncipe e Brasil procura encontrar novos espaços para fazer da afinidade histórica uma ferramenta de cooperação estratégica.

Waley Quaresma

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